segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

UM CARRO NO NATAL

COLUNA O PILOTO X, n.o 35



O Natal chegou. Minha mulher quer ganhar um carro. Digo a ela que o melhor presente é estar presente, estar ao lado de quem se ama. Ela me diz que realmente é bom estar ao lado de quem se ama, principalmente se for dentro de um carro novo.

A conversa prossegue repleta de ironias. Está difícil escapar dessa história de carro novo. Vou então para o computador e escrevo um texto para ela. Mulher adora demonstrações de carinho. Talvez assim ela esqueça essa história de comprar carro novo em meio a uma crise mundial. Eis o texto:

“Pra não dizer que não falei do amor


O amor não precisa de testemunhas, nem de promessas. O amor é espontâneo, não tem data para acontecer, nem para terminar. O amor é imensurável, não se conta em anos, porque o amor não se ajusta ao tempo, não sabe o que é passado, o que é presente, desconsidera o futuro. Uma eternidade é muito pouco para o amor e um segundo é o bastante para senti-lo. É arvore cuja raiz se aprofunda com os anos e não é qualquer tempestade que derruba.

O amo é sexo, porém é mais que sexo, porque o amor emana do espírito. É mais que a carne e talvez por isso mesmo possa ser eterno, porque a carne é passageira, efêmera, circunstancial. O amor é gigantesco, infinito mas invisível, é maior do que o universo, mas cabe no coração. É mais belo que o céu e mais profundo que o mar.

Não é como a paixão, ventania que passa, misturando dor e alegria em um tornado de destruição, nos deixando depois a ruína. O amor é diferente. O amor é aquele sol que nasce toda manhã e nos aquece. O amor é certeza, é segurança, é cumplicidade de vida. Como o sol, o amor sempre renasce depois da escuridão, sempre reaparece depois da tempestade. Não vivemos sem o sol, não vivemos sem o amor.

O amor não tem receita, não tem planos. O amor tem só amor. O amor é união indissolúvel de almas, um quebra-cabeça de duas partes, dois pés caminhando lado a lado por uma estrada sem volta. E quando um dos pé padece no caminho, o outro não consegue ir muito longe sozinho e então pára de caminhar. E, certamente juntos, voltam a andar por outras estradas, porque o verdadeiro amor emana do espírito e está cima de tudo o mais.”


Termino o texto e o envio para o email dela. No outro dia, no trabalho, abro a caixa de entrada e encontro a seguinte resposta:

“Meu bem, obrigada pelo texto. Não precisava. Ao invés de ficar escrevendo para mim, gaste seu tempo trabalhando mais, pois acabo de pegar meu carro zero na concessionária e... adivinhe quem vai pagar???”


Estamos saindo de férias. A coluna volta a circular no dia 19 de janeiro. Boas Festas!!!

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